quinta-feira, 15 de julho de 2010
Datas
Não gosto de datas nas coisas, principalmente documentos. Datas me esquecem para o importante. Datas impregnam as coisas de marcação, fazendo sobressair um fio ininterrupto de nostalgia. Datas se sobrepõem umas as outras, consecutivizam-se (e provocam conjugações horrorosas, como uma das que acabei de praticar). É a máthesis atropelando o dizer despretensioso. Chegam, anunciam-nos, como um ambulante que propala o biscoito de polvilho e depois sai do ônibus. Do que falávamos na quarta-feira? O mundo é impreciso, é sua necessidade, respeitemo-la. Viu isso? Novamente, elas. Fotos com datas, textos com datas, amores com datas. E se ainda estou na foto? Se o filme ainda não saiu de mim? O livro permanece aberto, ainda amo e setembro me diz tanto quanto outubro. Só devia haver uma data nessa vida. Nem nascimento, nem morte. Data do meio, fiel ao homem e seu acontecer. Mais saudades passariam despercebidas e quando menos esperássemos... mais um dia.
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Poemas de levar consigo II
Paragem
Só
Com os meus bois.
Os meus bois que mugem e comem o chão,
Os meus bois parados,
De olhos parados,
Chorando,
Olhando...
O boi da minha solidão,
O boi da minha tristeza,
O boi do meu cansaço,
O boi da minha humilhação.
E esta calma, esta canga, esta obediência.
(Dante Milano em Obra Reunida)
Só
Com os meus bois.
Os meus bois que mugem e comem o chão,
Os meus bois parados,
De olhos parados,
Chorando,
Olhando...
O boi da minha solidão,
O boi da minha tristeza,
O boi do meu cansaço,
O boi da minha humilhação.
E esta calma, esta canga, esta obediência.
(Dante Milano em Obra Reunida)
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Poemas de levar consigo I
Tecendo a manhã
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.
(João Cabral de Melo Neto em A Educação pela Pedra)
quarta-feira, 11 de novembro de 2009

A janela tremeu, o inverno disse. Não de frio, que isso é de homens, mas de tristeza. Ameaçou chover, ventou. Suposta mudança: e tudo ficou para depois. As roupas saíram do varal, os cães foram para os canis, o que secava na sacada se recolheu, esperando para evaporar. Tomou-se ordem de aguardo do estio antes mesmo do início da tempestade, porque nessa vida pede-se que os homens se antecipem as tragédias, ainda que ninguém avise com precisão quando vai morrer.
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